Respirando a atmosfera densa de seu mundo utópico ela dança no escuro e canta em silêncio. Os que podem vê-la riem e somente aqueles que podem ouvi-la choram.De tempos em tempos um sorriso escapa-lhe pelo canto de seus lábios imóveis, e então, uma lágrima percorre-lhe a face árida enquanto a platéia vai sendo sufocada pela lona de seu circo. Só depois do último suspiro, quando já não há mais vida ao seu redor, é que as lágrimas descem torrencialmente e misturam-se ao seu suor. A mistura é fétida, cheira a morte, o riso torna-se escancarado e sua dança bela. Sonhando com aplausos ela salta de um precipício e mergulha no mar da solidão. De lá, com os braços estendidos espera que alguém possa resgatá-la. Pois só assim seus sonhos voltarão a ter cores e seu espetáculo poderá chegar ao fim.
André Gabriel
